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Laticínio de AL foi um dos pioneiros no Brasil
 
O Jornal – Domingo 18/10/2009
 
   

O Primeiro empreendimento agroecológico de Alagoas foi a Fazenda Timbaúba, localizada no município de cacimbinhas, a 177km de Maceió. Lá em cerca de mil hectares de terras, funciona um complexo pecuário totalmente integrado a natureza de onde se tira praticamente todos os insumos necessários para se produzir. A propriedade também foi uma das pioneiras no País, sendo a quarta empresa a receber selo de certificação dada pela consultoria IBD, em 2002.

A propriedade faz parte da família Xavier há 56 anos, assim como a criação de gado leiteiro. O uso defensivos agrícolas só deu quando a segunda geração assumiu a atividade e passou a fornecer seu leite para grandes laticínios. Nessa época, os técnicos dessa empresas apresentaram um pacote de facilidades no modelo produtivo que surgiria não apenas o uso de produtos químicos, com a criação de galo holandês.

Além disso, seguindo o exemplo de outros produtores da região, seu Osman Batalha Xavier, patriarca da família, costumava fazer queimadas com objetivo de limpar a área e abrir espaço para o pasto e para o gado.” Eu não sabia explicar o porquê, mas sempre achei desnecessário destruir tudo para poder criar gado. Cresci entrei na faculdade de Agronomia com objetivo de descobrir alternativas agrícolas, mas de certa forma me decepcionei porque o curso só ensina o modelo agrícola convencional de produzir”, conta Osmando Xavier, filho de seu Osman, sócio da Fazenda Timbaúba.

A resposta para a busca de Osmando veio dos livros da especialista Ana Primavesi, precursora da agroecologia no Brasil, que mais tarde veio a se tornar sua professora em um curso de pós-graduação concluído em Botucatu (SP).”Até hoje os cursos de agronomia têm essa deficiência curricular. Eles pouco se dedicam ao estudo do cultivo orgânico e os resultados disso é a recorrente contaminação dos lençóis freáticos, a esterilização do solo, o desmatamento, a intensificação do efeito estufa e as mudanças de clima”,reflete.”Eu cresci observando a destruição do bioma da caatinga, típica do meu município, pela expansão de pecuária. Prática essa que persiste em outras regiões do país, inclusive na Amazônia”,afirma.

Animado com a descoberta dos orgânicos, Osmando propôs uma mudança de modelo produtivo na Fazenda Timabúba para seu pai no final dos anos 90.Cético, o patriarca resistiu, com receio de ter perdas e ver o gado morrer.”Ele só foi convencido pelas transição quando decidimos fazer uma espécie de quarentena, mantendo isolado parte do rebanho sem contato com remédios ou produtos químicos. O gado não apenas sobreviveu como prosseguiu resistente, então aos poucos fomos implantando uma série de mudanças a partir de 1999”, relembra Osmando Xavier.”A produção de orgânicos nada mais é do que uma volta ao passado, aos velhos tempos de meu avô. Antes dos anos 50, nenhuma Fazenda brasileira utilizava defensivos agrícolas. Os agrotóxicos surgiram durante a segunda guerra mundial quando foram utilizados como uma espécie de armas químicas. Hoje, eles continuam matando os seres humanos, só que de forma mais sutil. Há estudos que mostram que varias doenças estão atreladas a falta de qualidade na alimentação das pessoas”,dispara.

Uma das primeiras medidas adotadas durante a frase de transição para o modelo orgânico foi a miscigenação do gado holandês da Fazenda Timabúba com os gados da raça Zebu e gir, típico de climas tropicais, mais resistentes às características da caatinga. A iniciativa não apenas reduzir os riscos de estresse propagação de doenças no rebanho como contribuir para aumento da produtividade de leite. Essas miscigenação do rebanho foi promovida entre 2000 e 2001. Além disso, Osmando Xavier passou a replantar uma série de espécies nativas da caatinga, cultivar palma forrageira, milho e outras culturas utilizadas como ração animal sem utilização de qualquer herbicida ou adubos químicos e deixou que outras espécies vegetais crescessem nos pastos.”Aos poucos aquele ambiente devastado foi se transformando naturalmente, atraindo novos animais e pássaros para a propriedade. Fazemos o registro fotográfico de cada mudança promovida na paisagem”,diz.

Para combater doenças e carrapatos que invariavelmente atingem o rebanho, Osmando lança mão da fitoterapia, de uma planta indiana chamada neem – que tem diversas aplicações, entre elas a produção de adubos e controle de pragas – e da algaroba que reforça a imunidade animal graças às propriedades nutricionais. Mas, ele pretende também adotar a homeopatia para contribuir no tratamento de alguns males e até fertilidade animal. Outras indicativas que visa prevenir doenças é a separação do gado por faixa etária, mantendo bezerros afastados dos animais adultos. (P.M.)

Empresário quer envolver outros produtores

A certificação da Fazenda Timbaúba veio três anos depois, mas exigiu muito investimento e dedicação. Tanto esforço gerava certo ceticismo entre os produtores vizinhos que diziam à boca miúda que o idealismo de Osmando levaria os negócios da família à bancarrota.” O processo de certificação é transparente e fácil de assimilar. Tem vários deveres de casa a serem cumpridos e exige um pouco de disciplina. Mas tudo vai depender da vocação por parte do produtor. Os que sentem dificuldades em se adaptar são aqueles que no fundo não sentem amor à natureza, às plantas, aos animais e à terra”, afirma.” O produtor com vocação verdadeira para o cultivo orgânico enxerga a natureza como uma aliada e não como um obstáculo a produção”.

A idéia do laticínio veio logo depois do processo de certificação, quando ele percebeu que as grandes indústrias que compravam sua produção não valorizam seu leite orgânico. Dessa forma, o projeto do Laticínio Timbaúba requisitou novos investimentos, passando a entrar em operação no ano de 2004. Hoje, a agroindústria da família Xavier beneficia 45 toneladas de produtos orgânicos derivados do leite, com a marca Timbaúba, levando para as gôndolas das grandes redes varejistas sua linha de produtos formada por leite, manteiga, creme de leite fresco e iogurtes.

Na mesma fábrica também é produzida uma linha de derivados do leite convencional que leva a marca Mainha. Todos os dias as operações começam com a produção de derivados de leite orgânico Timbaúba e somente depois vem a fabricação dos produtos convencionais. Sempre que se encerra essa produção é feita uma assepsia dos equipamentos antes de voltar à produção dos orgânicos.

Atualmente, a marca Mainha é responsável por 70% do faturamento do laticínio, enquanto a linha orgânica representa 30%. Segundo Osmano, essa diferença de receita ainda se deve à falta de informação sobre as vantagens do orgânico.”O governo federal deveria investir mais em campanhas sobre agroecologia. Porque o problema não é a questão de preço, tanto que nós fizemos um teste nos pontos de venda quando nosso produto orgânico está mais barato do que a Mainha, nossa marca convencional vende mais do que a orgânica”,diz.

“Estamos investindo agora na ampliação da nossa fábrica que possibilitará o incremento de produção em 40%. Além disso, estamos lançando novos produtos como achocolatado orgânico e a bebida láctea com frutas nos sabores açaí, cajá e guaraná”, conta animadamente Osmando Xavier, mencionando que o carro-chefe das vendas ainda é o leite integral. Atualmente, os produtos da marca Timbaúba vão atravessar as fronteiras e chegarão nos super mercados de Pernambuco. Em Maceió, eles podem ser encontrados nas redes Bompreço, GBarbosa, Palato e Unicompra. O empresário também faz entregas em domicílio em alguns bairros de Maceió, com objetivo de fidelizar a clientela. Com esses consumidores ele tem estabelecido uma parceria para promover a reciclagem das embalagens plásticas dos produtos. Ao receber novas remessas o cliente devolve as embalagens vazias que são doadas ao projeto Pitanguinha de reciclagem.

Apesar dos negócios estarem indo bem, o maior sonho de Osmando Xavier não é o de dominar os mercados do Nordeste ou do exterior. O que mais motiva no momento é a meta do convencer um numero cada vez maior de produtores de leite em seu município a adotar o modelo de agroecologia de produção.”Não adianta eu ser uma ilha de prosperidade em uma região devastada e empobrecida. Meu maior desejo é de criar um cinturão verde nas duas bacias próximas a Fazenda Timbaúba. Gostaria muito que minha região fosse um espelho para outros produtores de Alagoas e do Brasil”,conta. Mas, se antes ele era visto com muito ceticismo, hoje diante de tantos progresso, o empreendedor vem quebrando o gelo entre seus fornecedores e conseguindo cooptar alguns adeptos para produção de leite orgânico.”O desafio é grande porque ainda há muita resistência e medo do risco. O produtor só acredita vendo os resultados in loco”,afirma. Também está nos planos empreendedor lançar no mercado novos produtos orgânicos, entre eles mel e os ovos e a galinha.”No ano que vem pretendemos entrar no seguimento de turismo rural”,afirma. De acordo com Osmando Xavier, a agroecologia é compatível com a produção em larga escala e cita o exemplo da Usina São Francisco, localizada em Sertãozinho (SP), dona da marca Native, a maior produtora de cana de acocar orgânico do mundo.

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